Inteligência e contra-inteligência: a serviço do quê (ou de quem)?
Abaixo, uma reportagem da Folha de São Paulo, edição deste domingo, 20/07/08, explorando um pouco mais o caso da já famosa Operação Satiagraha.
Além da notícia em si, onde se discute as influências e interesses (internos e externos) da PF na investigação, e algumas coisas que ficam inexplicáveis, mas são relatadas na reportagem, meio que subliminarmente.
Por exemplo, dá pra destacar o fato das placas CLONADAS informadas pelos agentes nos relatórios, segundo a reportagem. E daí?, perguntaria alguns. Respondo: em alto e bom tom, na reportagem é dito que os agentes PF NOTIFICARAM as autoridades superiores de veículos com placas diferentes e falsas, inclusive com relatório detalhado e circunstanciado.
E se os veículos forem de particulares, como é que fica? esses particulares tem que buscar a defesa (quase sempre inútil) em recursos de infração de trânsito? e, por último, pq não se trabalha com as placas legais, com bloqueio de consulta, como qualquer órgão sério de levantamento de dados e investigação? fica a
a discussão.
Agentes da PF afirmam que foram vigiados por colegas
RUBENS VALENTE
Policiais federais que atuam na Operação Satiagraha, que no último dia 8 levou à prisão o banqueiro Daniel Dantas e o investidor Naji Nahas, disseram ter sido seguidos pelas quadras de Brasília pelo menos seis vezes entre março e abril. Em dois casos, os agentes federais reconheceram, entre os supostos perseguidores, dois servidores do próprio departamento da PF, lotados em Brasília.
As supostas perseguições teriam sido feitas por sete carros diferentes. Quando os policiais foram checar as placas dos carros, descobriram que seis delas apontavam para veículos de marcas e modelos diferentes dos que os seguiram e que uma das placas era falsificada.
A história da vigilância sobre os investigadores da Satiagraha é narrada num relatório da Diretoria de Inteligência Policial da PF que integra o inquérito da operação, de 28 de abril. Dois dias antes, a Folha havia divulgado, com exclusividade, a existência de investigação contra Dantas. Os relatos das perseguições são de “março de 2008″ e dos dias 4, 16, 17 e 20 de abril. Portanto, anteriores à reportagem da Folha.
No dia 28, nova suspeita foi relatada. Desta vez, no cemitério Campo da Esperança, quando um policial informou ter reconhecido dois “servidores” da PF, um deles da área administrativa, a quem identificou nominalmente no relatório.
A narrativa mais detalhada é a da noite de 17 de abril. O policial da Satiagraha contou que voltava para casa, por volta das 19h30, quando suspeitou estar sendo seguido. Decidiu então estacionar “numa rua deserta”.Esperou ali por algum tempo. Ao deixar a rua, “veio ao seu encontro um Ford EcoSport, com duas pessoas, em alta velocidade”. Segundo o policial, os dois “estavam numa atitude clara de procurar alguém, e, no momento em que se depararam com o agente da equipe, ficaram desconcertados, constrangidos, disfarçaram e foram embora”. Ao checar a placa, a PF descobriu que se referia a um Ford Ranger prateado.
Treze dias antes, outro agente da PF ligado à Satiagraha teria sido seguido por dois carros ao mesmo tempo, um Santana e um Renault Megane. O policial fez uma “ação de evasão na tentativa de confirmar a vigilância, na qual obteve êxito, pois, ao efetuar duas vezes o “balão” da [quadra] CLS 208, Brasília/DF, foi acompanhado pelos mesmos [carros], que o seguiram até o seu destino”.
Os relatos embasaram também um relatório da diretoria de repressão a crimes financeiros da PF, que acusa o grupo ligado ao banqueiro Daniel Dantas de promover “vigilância em cima do delegado Protógenes Queiroz” e de outros policiais. “Em áudios obtidos nas interceptações telefônica e telemática, fica claro o acompanhamento dos passos do delegado [Queiroz], especialmente seus deslocamentos territoriais.”
Segundo o documento, após o vazamento da operação, pessoas ligadas a Dantas passaram a buscar informações no Judiciário e “mobilizaram os contatos, conseguindo inclusive alguns dados sobre a presente investigação, com indícios de que, para tanto, tenham ocorrido práticas de tráfico de influência e de corrupção”.
Os relatórios da inteligência somam-se a outras desconfianças. Numa conversa gravada com seu superior em Brasília, Protógenes Queiroz cita seu “estranhamento”. Respondia à informação de que poderia responder a procedimento administrativo porque uma equipe de TV conseguiu filmar o ex-prefeito Celso Pitta de pijama.
“Já tenho uma investigação a respeito de vazamento e de condutas muito estranhas durante o período todo de investigação, então isso aí pra mim não é novidade, só vou agregar esses fatos ao grande volume de dados que eu já tenho (…), que está sendo informado ao Ministério Público e ao juiz, diuturnamente”, disseQueiroz, em ligação de 9 de julho.
A assessoria de comunicação do Departamento da Polícia Federal em Brasília informou que o órgão não comenta o relatório de inteligência nem detalhes da Operação Satiagraha.