Abaixo, uma notícia que achei relevante, que capturei do grupo de discussão policial-br@yahoogrupos.com.br, o qual já recomendei a vcs, muito bom. Peçam a inscrição, informando qual a força policial que vc pertence, e eles vão te confirmar (ou não, o q é raro) sua inscrição para participar deste grupo seleto de discussão do serviço policial. Temos Delegados, policiais militares, agentes PC, PF, PRF e Penitenciários, policiais americanos, entre outros. Façam um teste…
Fonte: SSP/SP – Noticias
Em uma iniciativa única, a Polícia Militar do Estado de São Paulo abriu, pela primeira vez, uma edição do curso de Tiro Defensivo de Preservação da Vida “Método Giraldi”, para jornalistas dos grandes meios de comunicação. Durante dois exaustivos dias, 22 profissionais da imprensa tiveram a oportunidade de conhecer o método de treinamento da PM, utilizado desde 1999, que ensina aos policiais as técnicas primordiais a serem utilizadas em confrontos e situações de estresse.
“Agora eu entendo”. Ou “se eu soubesse que era assim, teria feito aquela matéria de outra forma”. E também: “Mudei minha visão sobre a polícia; agora eu os vejo como gente”. Esses foram alguns dos relatos de jornalistas ao final do curso de Tiro Defensivo de Preservação da Vida “Método Giraldi”, realizado nos dias 06 e 07 de agosto, no Centro de Formação de Soldados (CFSd), em Pirituba. A breve experiência vivida por 22 profissionais que atuam na Capital e no Interior foi suficiente para dissolver alguns estereótipos e dar a eles novas esperanças sobre os rumos da polícia. A proximidade com os policiais militares instrutores do curso, o contato com o coronel da reserva Nilson Giraldi (autor do método), e, principalmente, a prática do método com armas e munições, que lida diretamente com o emocional de quem está atuando, foram razões para tantas mudanças.
“Ué, não era curso de tiro?”
Antes de manusear as armas e iniciar as aulas práticas esperadas ansiosamente por todos, tivemos uma introdução dos conceitos do “Método Giraldi”, conduzida pelo coronel Eliziário Ferreira Barbosa, comandante da Polícia Rodoviária do Estado de São Paulo, e um dos principais instrutores do curso. Ele explicou que o método, na verdade, é “uma doutrina da atuação armada da polícia e do policial, com a finalidade de proteger a sociedade e a si próprio”. Em suma: é um modo de solucionar (sempre que possível) qualquer ocorrência por meio de verbalização, sem o uso da força e sem colocar em risco a vida e a integridade física das pessoas.
Trata-se de uma mudança de cultura. Nas palavras do coronel Eliziário, aliás, várias ‘mudanças de cultura’: de uma cultura de onde tudo é resolvido com “invasão”, tiros e bombas para uma cultura de “negociação”; de uma cultura de disparar contra pessoas em atitude suspeita para uma cultura de “verbalização”; de uma cultura do uso da arma de fogo para segurança do Estado para uma cultura do uso da arma de fogo para a segurança do cidadão.
Em princípio, o método pareceu muito eficaz. Porém, restava a dúvida de como seria aplicado à realidade e de como instruções tão simples poderiam ser tão determinantes para uma mudança de postura do policial. Dúvida essa que só seria esclarecida algum tempo depois. Após as explanações do coronel, seguimos do Quartel do Comando Geral da PM, no Bom Retiro, para o Centro de Formação de Soldados, em Pirituba, na zona oeste da Capital.
Do gravador à pistola
Assim que chegamos ao Centro de Formação de Soldados (CFSd) – órgão da PM responsável pela formação do futuro profissional de polícia ostensiva e fiscalização técnica dos demais órgãos formadores do Estado de São Paulo, fomos apresentados ao nosso novo instrumento de trabalho (apenas durante os dois dias do curso, é claro): a pistola .40. A arma foi adotada pela PM e, em breve, deve substituir os revólveres de calibre 38 em todo o quadro da corporação.
Cerca de 30 instrutores oficiais da Polícia Militar de todo o Estado, que atuam em diferentes grupamentos e unidades, nos receberam da forma como um anfitrião acolhe um visitante em sua casa. Com toda a atenção e cuidado que mereciam 22 jornalistas que haviam tido pouco ou nenhum contato com a arma, os instrutores explicaram todo o funcionamento técnico e prático da pistola .40.
Explicaram também o porquê da sua adoção pela PM: o projétil desta arma, em especial o expansivo, tem poder de parada. Isso significa que, ao atingir o corpo humano, o projétil imobiliza de imediato o agressor e sua ação perigosa contra a vítima. Ele é necessário porque, nos casos em que a munição não tem esse poder, como os calibres 38, 380 e 9 mm, o agressor pode ignorar o tiro no momento em que recebê-lo e continuar sua ação, sentindo seus efeitos momentos depois.
Os instrutores lembraram que o mesmo cuidado dedicado aos jornalistas é oferecido aos policiais que participam do curso e que, inclusive, o respeito e a consideração são qualidades exigidas para o cargo. Mais tarde, o autor do método nos diria que o professor não está lidando com ‘policiais’, mas com ‘homens policiais’, ‘mulheres policiais’ e, acima de tudo, com ’seres humanos policiais’. “Ser humano é substantivo; policial é adjetivo”, ensina o coronel Giraldi.
Após entender e dominar (tomadas as devidas proporções) o instrumento de trabalho, iniciamos as aulas práticas de tiro em um alvo retangular, com o objetivo de centralizar os disparos.
Então começamos uma seqüência de quase 100 tiros para cada um dos aprendizes, nas mais variadas posições e distâncias: de pé, ajoelhado, deitado, inclinado, com uma mão só. Ao final do primeiro dia, braços e pernas cansados, cotovelos ralados, algumas das mãos machucadas pela falta de intimidade com as armas e alvos peneirados pelos jornalistas atiradores. A interiorização e o entendimento do método, entretanto, ficariam para o dia seguinte.
Prazer: Método Giraldi
O segundo e último dia do curso para jornalistas nos reservava muitas surpresas. Logo pela manhã, conhecemos a Pista Policial de Instrução (PPI). Semelhante a um labirinto, com paredes, cômodos e janelas, é um espaço utilizado para a simulação de situações reais, como ocorrências de roubo, seqüestro, entre outras, atendidas diariamente pela polícia. Os alvos, classificados como “amigos”, “neutros” e “agressores”, são devidamente caracterizados como seres humanos, e, às vezes, móveis. Essa mobilidade é o que mais mexe com o emocional do ser humano. E nós, jornalistas, sentimos na pele a dificuldade. Em fração de segundos, uma pessoa que parece desarmada saca um revólver e aponta para o policial, que deve estar preparado para se defender (e atirar se necessário).
Dentro da PPI, os instrutores comandam uma teatralização da realidade, conversando com os alvos. E nós tivemos que fazer o mesmo. Verbalizar mandamento principal do método com os alvos (de trás, os instrutores incorporam os alvos e estabelecem o diálogo), para definir se são amigos (policiais), neutros (inocentes) ou agressores. No entanto, mesmo um agressor não deve ser tratado de qualquer forma. O policial deve atirar sob a única e predominante condição de o agressor estar com a arma apontada contra ele. Só. Caso contrário, nada de tiro. Dedo fora do gatilho e conversa. Muita conversa.
Em casos de seqüestros com refém, por exemplo, também simulados no treinamento, a única orientação é negociar. “Atirador de elite não funciona, a história já mostrou isso. Somente em casos excepcionais. A nossa forma de atuar se baseia na negociação”, explica Giraldi. “Temos que negociar uma hora, duas horas, 20 horas, uma semana, um mês se preciso. Mas nunca atirar. O policial tem que pensar que a pessoa que está ali com o agressor é sua filha, sua mulher, sua mãe. Ela não pode morrer.”
O coronel Eliziário, principal instrutor do método, passou por uma situação como essas e foi exaltado por Giraldi. Segundo ele, o comandante da Polícia Rodoviária é o recordista em tempo de negociação com seqüestradores: em Campinas, passou 54 horas conversando e conseguiu, ao final, prender duas pessoas e liberar três reféns.
O coronel Giraldi lembrou que a idéia de atirar em braços e pernas não passa de utopia. “As pessoas que julgam ser isso possível é porque não têm a mínima idéia do que seja um confronto armado, onde a morte está sempre presente. Nesses casos, não há tempo nem condições de o policial escolher pontos de acerto no agressor; dispara na direção da sua silhueta e esse disparo não tem como finalidade matar o agressor, mas tentar fazer cessar sua ação de morte contra a vítima”, conta. A morte pode até ocorrer, mas o disparo do policial não tem essa finalidade.
Passada a primeira fase, chega a hora da parte prática, o ‘grand finale’: a Pista Policial de Aplicação (PPA). Nela, que é uma espécie de avaliação, o aluno passa pela pista sem saber o que vai encontrar pela frente e vive a situação que beira a realidade, em um ambiente de total estresse. Para mim, o estresse foi agravado pela chuva que apertou ainda mais no momento da minha entrada na PPA. Saldo pessoal: dois inocentes mortos. Um assassinado por mim, que não tive a frieza necessária quando vi o alvo surgindo de repente, e outro… Bem… Eu também morri! Demorei muito para reagir em outra situação, me expus, e teria sido baleado pelo agressor se não estivesse no campo de treinamento. “É assim mesmo, a gente erra aqui pra não errar lá fora. Nosso lema é: deixo meu suor no campo de treinamento para não deixar meu sangue e minha liberdade no campo de trabalho”, disse um dos instrutores para me consolar.
A família Giraldi
Enquanto aguardava a minha vez de entrar na Pista de Aplicação, eis que surgiu o grande personagem de minha matéria e, porque não, da mudança de cultura da Polícia Militar: o coronel Giraldi. Ao chegar, Giraldi foi recebido pelos instrutores do curso com muito carinho, quase sempre com um beijo no rosto. Estranho para policiais militares, que têm por tradição a austeridade e a formalidade. “Trato eles como meus filhos e sei que é recíproco. Eles têm muito respeito pelo que eu represento e pelo método que eu criei. Somos mesmo uma grande família”, afirma.
Após o encerramento das atividades, o coronel nos deu uma palestra explicativa sobre os fundamentos do método desenvolvido por ele. Contou que é todo baseado na neurociência, no comportamento do ser humano. E, por isso, tem resultado tão positivo. Segundo Giraldi, quando aplicado, “o método reduz em 95% a morte de policiais em serviço, em 100% a morte de inocentes provocadas por policiais em serviço e também daquelas contra as quais não há necessidade de disparos (agressores)”. Em 1999, por exemplo, ainda sem o método, 317 policiais militares foram assassinados na PMESP, em serviço. Projeções da época davam conta de que, a continuar como estava, em 2005 seriam em torno de 400.
O início da implantação ocorreu justamente no ano de 1999 e, embora os confrontos armados tenham dobrado no período, em 2005 foram assassinados “apenas” 15. “Ainda é um absurdo. O índice aceitável é zero. Afinal, ninguém entra na polícia para morrer”.
Giraldi explicou que um dos principais incentivos para a criação de um novo método foi a falta de aplicabilidade do que era adotado até então pela PM. “O treinamento dado na polícia era importado das Forças Armadas. Essa instrução é muito boa para os integrantes das Forças Armadas, mas não serve para os policiais. Sua finalidade é destruir o inimigo; se possível, no momento em que ele menos espera”, explica ele, que gosta de dizer que a polícia não tem inimigo; quem tem inimigo é a sociedade. Cabe à polícia defendê-la, sempre que possível, sem o uso da força.
O método faz parte da grade curricular de formação de soldados e oficiais, na PM de São Paulo, desde 2002, além de ser reconhecido e indicado pela Cruz Vermelha internacional.
É aplicado também em vários estados do Brasil, além de já ter sido difundido no México e Peru, e transmitido, pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), às polícias Civil e Militar de vários Estados, assim como à Polícia Federal e Rodoviária Federal. Também é aplicado para todos os policiais do Estado por meio de um estágio de aperfeiçoamento. A carga horária e a intensidade dos treinamentos de tiro defensivo oferecidas aos policiais são, por motivos óbvios, bem superiores às disponibilizadas a nós jornalistas.
“Uma polícia é conseqüência do seu treinamento. Treinamento não é gasto, é investimento”. Essas palavras são repetidas exaustivamente por Giraldi, que garante que a modificação na metodologia pode resultar em uma mudança estrutural da corporação. O método é direcionado, especialmente, a quem está na ponta da linha, cuidando do policiamento ostensivo e tendo contato direto com a população. É através desse policial que a sociedade julga a corporação à qual ele pertence, e não pelo que ela tem ou executa na retaguarda. “O policial fardado, nas ruas, é o Estado materializado, servindo e protegendo a sociedade. Investir nele é investir no Estado, na sociedade e na própria polícia”, conclui Giraldi.